No Reino das Águas Claras
 

 
Olho curioso do ouvido xereta, no meio da boca um sorriso feliz...
 
 
   
 
Terça-feira, Novembro 28, 2006

Laços alvos de algodão do cadarço sob minuciosa satisfação. Branco da sola e verde da lona harmonizando reflexo agradável de si nos pés. Meia alaranjada coberta pelo jeans. Uma cor na esperança de ser descoberta pelo acaso de um alguém que deverá achar surpresa condição de beleza e verdade. Camiseta de malha preta, trança preta nos cabelos contida por laços laranja de cetim (para amenizar o possível susto). Vai depois de porta fechada brotando verdes no concreto chão tal qual tênis semeasse calçada ao invés de calçado. Debaixo do braço um dicionário, no bolso grampeador. Toda a vida em volta não lhe chama a atenção, porém ela teme olhos. Fazer então como lagartixas que se camuflam na paisagem. Por isso que quando chega em seu destino anda de lá para cá sem mais somar distância de casa. É o seu jeito de se misturar. Espera a entrelinha certa do lugar e num descuido do acontecimento das coisas encontra o momento ideal: tira das axilas o livro e saca um grampeador do bolso. Rapidamente, prega duas páginas. Volta para casa missão cumprida. Troca de uniforme para o segundo turno do dia. Desta vez vai de carro. Enquanto dirige ou até mesmo durante a vivencia do resto do dia cogita quais as páginas a serem unidas por um grampo no dia seguinte.

Domingo, Novembro 26, 2006

Coisas de passarinho

O mau humor até se esquece de mim quando eu noto na janela do meu quarto um imenso prédio em construção. E mesmo se quisesse não me encontraria, porque quando ele pensa em vir já estou lá perto das pirâmides do Egito. Vou deitada na minha cama que desliza utilidade para tapete voador graças ao empilhamento de tijolos. Contudo, nada deve ser melhor, nem mesmo minha condução de mil e uma noites, do que aquele elevador amarelo que a tecnologia pôs no lugar dos andaimes. Coisa do passado esses professores que na melhor das hipóteses graduavam com a didática da morte pedreiros equilibristas! Até o azul pipocando na cortina do mundo fica negligenciado... Coisa de poeta isso não, vaidade humana (risinhos cínicos).

Quando a construção estiver habitável, pode ser até vantagem a bela vista dos grandes, de onde se vê os horizontes da nem tão pequena cidade. Mas de onde virá majestade? Não é do tamanho não. É do capacete azul e do elevador amarelo a deslizar pelos tijolos vermelhos. Será que os pedreiros sabem? Ou será que são daltônicos? Será que sentem friozinho na barriga quando sobem? Ou será que só se cansam?... Porque tem motivo pra isso né? Tenho um desejo: que, no mínimo, um deles se rebele e possa um cadinho sonhar como criança, mesmo dentro daquela gaiolinha. Porque uma vez passarinho não se pode só pensar no ninho ou na gaiola...

Sábado, Novembro 25, 2006

Gosto de flor vagabunda, tipo Margarida que dá na calçada. Sem muitas exigências, exuberante, polpuda e aberta tal como se ovos estalados no fogo de uma frigideira brotassem de cabos verdes de planta. A Rosa, fechadinha em anáguas, está sempre atrás de alguma grade medrosa. Tenho pena... Aliás, não sei se é pena... Fico triste com rosa tão carente de cuidados.

Sexta-feira, Novembro 24, 2006

O tempo nublado da região sudeste do Brasil está para as violetas, que poderão sair dos recantos de luz indireta das casas diretamente para os jardins que dão para a rua.

Quinta-feira, Novembro 23, 2006

Poema que se poema sozinho
é apenas um poema,
mas poema que se poema junto,
é verossimilhança.
E vão todos a passear domingo:
Seo Poema, Dona Poesia e seus poetas.

Quarta-feira, Novembro 22, 2006

Dedicatória não escrita para um amigo no exemplar não comprado das obras completas de Manoel Bandeira

Querido amigo,

Tu que já me deste tanto e grandes coisas que jamais poderei retribuir, ganhas hoje este livro para acompanhá-lo em tuas andanças. Porque dissestes um dia: "Eu nunca gostei de ler. Prefiro ouvir uma história". Fiquei chocada contigo, quase desistida, tentei não pensar naquela tarde. Porém hoje me relembrei daquele que invadiu o quarto de um qualquer anfitrião em Praga e encontrou Clarice Lispector em alemão sob o travesseiro e chorou... Agora entendo, o que tens é mágoa, mágoa desta atividade que demanda tempo, esse ligeiro que tua sede ilude que não tenhas. Sendo assim, tome! Tome esta poesia e beba tudinho!

Segunda-feira, Novembro 20, 2006

A bíblia dos céticos
Trecho retirado do capítulo do Gênesis

A vida passava como as páginas de um livro... Um livro sem capítulo folheado por um analfabeto. Foi essa a recompensa da razão, uma dama ingrata e viciante. Mas também foi num tempo assim que ele recriou-se; funcionário da morte, a patroa não mais lhe concedia a indolência. O peso que o segurava ao chão se desmanchava no ventre das traças de modo que qualquer suspiro lanceado levaria consigo todo o resto do corpo preparado, desde os tempos esquecidos, para ferir a vida.

Seria necessário tinta? Madeira? Mármore? Metal? Palavra? Som? Carne? O que? Perguntava... E o silêncio, pai de toda meditação, respondia mas ninguém jamais decifrava seu dialeto, apenas intuía... O homem ignorava quando devia trabalhar e foi assim que ganhou peso suficiente para voltar a terra sem poder sentir o chão, apenas o tocava.

E para onde quer que olhasse só via chão. Chão feito de brita triturada misturada a piche. Asfalto, assim surgiu a idéia. Além deste asfalto, acima e do lado só céu. Corpo azul cravejado de nuvens alegres que viviam dançando sem nunca chorar. De vestidos leves e alvos sem nunca se turvar. Nuvens refrescadas e risonhas! Céu furado donde vazava uma luz em forma de funil. Luz que todo o asfalto bebia. Sol! Veio-lhe a idéia. Quem furou o céu? O silêncio ficara para trás. O homem ignorava quando devia trabalhar e, por isso, agora já tinha peso suficiente para sentir o chão.

O buraco do sol foi aos poucos se derretendo pela parede do céu e o rasgado se fundiu de tal forma que tudo estava escuro novamente. O firmamento se confundia com o piche do chão e todas as coisas, inclusive ele, em luto se transformaram em tição. De tal forma o azeviche tomara o mundo no de repente e no tudo que agora o homem podia ver o que sua pele guardava por dentro. Oras! Mas onde estava sua semente? O silencio que só andava no escuro respondeu, mas... O homem ignorava quando devia trabalhar e com isso ganhou tanto peso que necessitou andar.

Era tudo ainda tão novo e perfeito que não existiam rugas em que tropeçar e valia nenhuma tinha nem mesmo o vislumbre. Mas como que para contradizer a resignação uma bola feito um lustre redondo se acendeu no céu enlutado. Lua! Veio-lhe a idéia. Foi ela quem fez o lençol negro mais transparente, descobrindo nuvens espiãs por detrás dele. Afinal, de quem seriam aqueles olhinhos brilhando sobre a cabeça humana? Ficou irritado. Que elas o observasse problema nenhum tinha, mas que fizessem isso dissimuladas ele se incomodava. Por isso quis apagar a lua. Onde estava o interruptor do mundo? O homem ignorava quando devia trabalhar e ganhou tanto peso que começou a escutar.

Aquela coxia de um espetáculo que nunca parecia começar: o capricho das nuvens mudando de vestidos toda hora... O vento alfaiate correndo e se lamuriando para lá e para cá em função daquela futilidade vaidosa... O barulho do rastro das fazendas de algodão... As risadinhas bobas por de trás da cortina negra... E o silêncio que nunca se calava - zuimimimuim, etc... Tudo o deixara em estado de tamanha angústia que furar o céu novamente tornou-se uma urgência. Talvez se jogasse uma pedra. Onde existem pedras? Zuimimimuim, palpitou o silêncio... O homem ignorava quando devia trabalhar e ficou tão pesado para voar até o céu e abrir uma brecha para o sol que só lhe restava como solução libertar o verbo.

E do verbo o céu se rasgou e liberou a luz novamente. E o tempo passou a ter como referência a dilatação do céu. Muitas densidades somar-se-iam ao homem que ficou tão poderoso que escravizou o galo para que berrasse em seu lugar e rasgasse o teto do mundo toda vez que este se fundisse.



Domingo, Novembro 19, 2006

Farça! Não fique ai parado! Profanar dia santo, que nem de todiano é, algo assim... Tipo diz apertar eureka na cabeça. Não é para qualquer um, não. Já no almoço, cozinhar beterraba sem lhe tirar o doce e a cor, essas alquimias... Que não pire em saiar uma idéia, porque a verdadeira já vai logo estreando nua. Nem me descreva a vida em crônica porque ela é aguda e dá corda soprana até ficar rouca. Diz farçar alguma lei para brincar de carnaval... Sei tá lá longe com sua namorada, a Nada. Quem quer saber? Todo mundo. Então eu digo que se gerúndio faz o que bem quer na hora que bem entende, então agora é fêmea também... E na fazenda da costureira se constrói cerca quando acaba o limite. Ex-curta a ber-muda agora é calça comprida de tanto falar. Tipo milagre! Mas não tava além. Tava nem. Foi só colocar... E às vezes tem que tirar no alvo, quando já tá bem madurinho. E num esquenta o verde porque cozido não é o mesmo que maduro. Farça que des-farça, gente!

 

 
   
 


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Prefácio da Bíblia dos céticos:
Livro
Edimilson Pereira


O mundo começou
no apocalipse.
A alegria das feras
e das águas
antes do paraíso.
A utilidade da ira.
As chagas.
E o vento, o vento
que movia sem tréguas.
Deus teve métodos
(e medos).
Criou o não previsto.


Todas as ilustrações: Kurt Halsey

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(Um dia "Candongas Não Fazem Festa"... A Narizinho é uma ex-Colombina...)