Quem: Olho curioso do ouvido xereta.
O que: inspirações modestas.
Onde: Livraria das Obras Inéditas.
Como: café, rock, lembranças e outras bilongas mais.
Por que: É preciso existir.
Quando: Desde 2006
Hoje ele se divide
E eu me multiplico
Ontem nos diminuímos
Mas amanhã, ah,
Amanhã somaremos
Escrito por Narizinho
Terça-feira, Dezembro 26, 2006
Cláudia.
"Não, não é isso!", a menina dizia. "O que eu sou é cientista!". E titia que era teimosa feito uma mula tentava a todo custo convencê-la com outra vocação. E quanto mais Cláudia tentava ser cientista mais a mulher se convencia que a menina era artista: "Porque se tirar a luz do azul ele não vai ficar preto, né? E se tirar a luz do cinza ele não vai ficar azul marinho". Daí o dedinho! "Eu não falei? Tem percepção poética!". Isso não era bonito, a menina dizia quase chorando, é ciência. Mas Tia tetê achava mesmo necessário terminar aquele papo no museu, ou melhor dizendo, no castelo que ficava no caminho da escola.
Uma vez lá dentro, a mulher continuou a falar abstrações. E a menina decidiu não ouvir porque estava suficientemente convencida. Mas para não se cansar mais, Cláudia resolveu fingir que escutava olhando atentamente para tudo que via. Tinham figuras bem coloridas que pareciam uma fotografia, coisas também bem bobinhas que ela já tinha feito com massinhas e outras tantas que, com tinta guache, Cláudia melhor desenharia. No entanto, foi o quadro das meninas que eram metade gente e metade guarda chuva que provocou aquela grosseria irresistível. "Que coisa boba! Tão bonitinhas, mas com só uma perna de bengala e saia formada pela parte do pano da sombrinha!? Eu quero ir embora!", saiu Cláudia ultrajada a caminho da rua.
Triste e cansada, Tia Tetê, enfim, quase desistiu. Quase, pois Cláudia ao ver na calçada uma moça mutilada de perna única gritou: "Olha Tia Tetê! Que linda!".
Escrito por Narizinho
Segunda-feira, Dezembro 25, 2006
O natal da Titia
Meu senso estético é o primeiro a não gostar de natal. Acho que vermelho e verde não combinam. As músicas são horríveis, muito dourado, muita prata... O paladar é o segundo a reclamar, mas perdoa as frutas. A sofisticação e variedade dos pratos tornam a comida logo enjoativa. E as bebidas? Nem todos os parentes têm bom gosto, aliás, são raros os que trazem um bom vinho e por isso acabamos misturando com cerveja e a ressaca é pior do que a de uma noitada rotineira qualquer porque nada interessante acontece com ela. Depois a família se abraça tal qual se fosse aquelas de novela. E é dividindo o espelho do banheiro com uma tia ou prima para retocar a maquiagem que escuto as mais vis mesquinharias.
Este ano, não por acaso, coloquei meu celular entre meu seio, preso no sutiã. É que à tarde, na fila de uma loja de departamentos, enquanto eu comprava o presente do meu amigo parente, fui encontrada por um oculto amante. As coisas não terminaram bem entre nós, entende? Se não fosse natal essa coisa não passaria de um cumprimento de sobrancelhas. Mas era véspera do aniversário de Cristo, então a gente pára para perguntar dos filhos e etc. Não sei, acho que foi o meu decote. Quando vi estávamos renovando os números de celulares ao invés dos votos. E quando foi meia-noite e meia em ponto o celular vibrou no meu peito, contudo, não tão forte como meu coração.
Fiquei feliz pelo adiantado da hora. Sinal de que ele não agüentara nem mais um segundo além do que o necessário numa ceia. Sem falar que fui salva, sim... Bem na hora que o padrinho do meu sobrinho instalara sua mão nas minhas pernas como se houvesse intimidade. Eu não sou obrigada a acreditar na inocência dos bêbados. A solteirona! Alguém deve ter dado a ele a dica. Por isso não tive um pingo de consideração. Retoquei o rubro da boca com o espelho da bolsa mesmo e como quem vai na varanda tomar um ar parti à francesa. Irônico, mas o carro dele também era vermelho... Vi, de relance, no banco de traz que ele trouxera champanhe e delicadezas gastronômicas... Ah, quem dera eu poder descrever aqui que cheiro bom aquele homem tinha! Fomos a um apartamento fantástico que um amigo dele emprestou... Bom, e o resto não foi o resto, se é que vocês me entendem. Gente! Puxa vida, eu não sabia que Papai Noel lesse as cartinhas de mulheres de mais de 30 anos!
*
* *
João de Barro
Onde a tristeza é mais feliz!
Venham, venham todos! Tomem assento na máquina do tempo e venham comigo a 13 de julho de 1950. Onde? Rio de Janeiro, mais especificamente estádio do Maracanã. No gramado, Brasil x Espanha duelando para permanecer na disputa pela Copa do Mundo. Bem ali, do nosso lado, um homem de bigodinho assistia a multidão ir ao delírio no primeiro gol. Ele foi também... E nós estamos arrepiados. Belíssima demonstração do futebol arte! Como se não bastasse, aos 11 minutos do segundo tempo, o atacante Chico se aproximou mais uma vez do goleiro espanhol e chutou. Puxa vida! Era o quarto gol. Mas de repente além de histórico, o momento passou a ser mágico para o homem de bigodinho. Empolgados com a atuação dos jogadores brasileiros e incentivados por esparsos gritos de olé, alguns torcedores começaram a cantar:
Eu fui às touradas de Madri
Parará-tim-pum-pum-pum
E quase não volto mais aqui
Pra ver Peri-i-i
Beijar Ceci
Parará-tim-pum-pum-pum
Parará-tim-pum-pum-pum
Como num passe de mágica, o que começou como brincadeira logo contagiaria todos os espectadores, transformando a partida de futebol numa das maiores demonstrações de canto coletivo que se tem notícia. Das quase 200 mil pessoas presentes ao evento, apenas uma não conseguiu cantar a marchinha... O homem de bigodinho que eu mostrei antes e que agora apresento a vocês: O nome dele é Braguinha, chamado também de João de Barro. Ele não está cantando porque chora copiosamente emocionado. Afinal essa era a maior consagração que um compositor poderia ter.
Maior até do que aquela, em 1979. Depois de mais de uma década no esquecimento, eis que João de Barro, quando menos esperava, ressurgia no cenário musical com a regravação de Balancê, por Gal Costa. O sucesso chegou até mesmo a surpreendê-lo que contava que só teve conhecimento da gravação pela rádio. Quando escutou pela primeira vez, gritou: Oba! Essa é minha!.
Quando por mim você passa
Fingindo que não me vê
Meu coração quase se despedaça
No balancê, balancê.
E era assim essa a sua maior característica. Falar de dor de cotovelo na maior alegria. Na sabedoria de quem reconhece a tristeza como fato incontestável da vida. Na leveza de quem aceita resignado os desafios dessa vida de forma serena. É dele também aqueles versos de Luzes da Ribalta, que também compôs o refrão do samba enredo de 1984 da Mangueira, que conseguiu um campeonato depois de onze anos de seca:
Para que chorar o que passou
Lamentar perdidas ilusões
Se o ideal que sempre nos acalentou
Renascerá em outros corações.
Esta não é mais uma história de um garoto pobre, sambista marginalizado, ou malandro contrariado. Contudo não é só de mazelas que se faz arte. Principalmente na MPB não há lugar para ideologias e modelos fixos. Esse menino de classe média é um dos maiores colaboradores da cultura nacional. Pertence a sua autoria desde composições de musicas de historias infantis quanto a lendas de garotas que se vestem com a casca de banana nanica.
Sacode a letargia desta segunda, caros leitores! Braguinha é nosso, é eterno, e ressurgirá sempre a cada carnaval.
Anda, Luzia!
Pega um pandeiro, vem para o carnaval
Anda, Luzia!
Que essa tristeza lhe faz muito mal
Apronta tua fantasia
Alegra teu olhar profundo
A vida dura só um dia, Luzia!
E não se leva nada desse mundo.
Escrito por Narizinho
Domingo, Dezembro 24, 2006
CarTAO para nAtaL andré monteiro
mãe nossa que estais na terranossa própria terra livrai-me: dos que não podem ficar à toa ao meu lado dos que não podem amar sem recompensasdos que não sabem ouvir a música poluída de todo esse barro dos que sempre preferem chamar a polícia dos que não despregam o olho da cruzde todos os escritores que trabalham a palavra e não brincam com ela dos alpinistas sociais travestidos de artista dos que não dão ponto sem nó dos que não acreditam no impossível dos que desconhecem o fracasso dos que trancam o dia pela noitedos que não deixam o menino deus brincar e não interrompem a palavra do pai dos que não abrem as janelas e não se deixam possuir pela ventania dos que não sabem fazer silêncio no meio dessa festados que nunca perdem o bonde e de nada podem esquecer dos vampiros que não acreditam nos anjos dos anjos que não enxergam no escurodos que não sonham comigo e não atravessam a alegria ferida no meu corpo.
Escrito por Narizinho
Literatura careta
Eu não trepo,
eu tenho romances.
Eu não faço versos,
eu escrevo romances.
Eu não existo,
eu vivo em romances.
Eu não escolho,
eu sigo romances.
Eu não parto,
eu finalizo romances.
Eu não morro,
eu recomeço romances.
Escrito por Narizinho
Sábado, Dezembro 23, 2006
Amor em tempos de bossa-nova
...meu amor vem de bicicleta me buscar para jantar. Eu vou no esquadro para ser beijada enquanto ele pedala. E este, distraído para a vida, entende tanto de vinhos de chapinha e garrafão quanto aqueles de nomes difíceis e datas. Dos da primeira espécie ele serve enquanto fala dos da segunda que só no natal pode comprar. Porque sabe brincar como ninguém de faz de conta que... Tem também mania de fazer coisas que de tão clichês não se usam mais. Como, por exemplo, arrancar, impiedosamente, vez ou outra, uma flor para pousar atrás da minha orelha. E ele entende tudo de filosofia, diplomacia, matemática, samba de partido alto e rock. Escreve vagabundo sem valor literário e chora com qualquer vírgula minha. Acredita que Deus existe quando coincidimos na apreciação de um detalhe e brinca de Gênesis todo dia tentando lunático e apaixonado povoar a Terra com nossos filhos que ainda não existem. Meu amor me abraça quando sinto medo e contra a escuridão recita os poemas de Manuel Bandeira de cór. E se eu vacilo lá vem ele com a historinha de Chapeuzinho Amarelo para me animar. Meu amor canta para mim e desafina tanto que, às vezes, sua voz chega fugir de vergonha. E ele queima toda vez o feijão porque não pára de confabular nem na hora de cozinhar. É o herói de todos os tempos e permite que eu seja frágil só pelo prazer de cuidar de mim. Meu amor me alimenta tanto, mas tanto, que nunca o meu estômago ronca...
Escrito por Narizinho
Quarta-feira, Dezembro 20, 2006
A bíblia dos céticos Trecho retirado do capítulo do Levítico
Um olhar só perde o silêncio se for compartilhado com outro. Caso contrário goza-se dos mais profundos mistérios. Por isso, quando outros homens foram brotando de jaz-idas fontes e a intuição distribuiu-se entre os iguais, viu-se o primeiro homem com obscuridades ameaçadas. Como, a partir de então, poderia garantir eternidade se se ressaltasse a rapidez do tempo na coloração de seus cabelos? Como legitimar as suas criações? Como proteger os próprios irmãozinhos inferiores (por ordem de chegada e conseqüente ingenuidade) da exultação das quimeras? E a concupiscência do belo? Eles teriam a sabedoria para não desgastá-lo? Eis que era preciso frear o cingidouro das voltas do mundo.
A primeira medida foi tomar para si os dotes de Sondaia* e depois de conseguí-los organizou todos eles em ordem própria. Pensou ser isto suficiente para construir uma fortaleza, mas ao encontrar os seus ele teve grande imprevisto: todos os umbigos caídos, pisoteados como chicletes na calçada por uma multidão em estado de lesa-majestade. Homens se arrulhavam ignorando espaços feito formigas que disputam os restos de um gafanhoto sem vida. Uma cena que imobilizou o homem primevo embaralhando-lhe a razão pela rijeza do espetáculo do susto. Por pouco ele não se uniu ao gesto coletivo, apenas se deteve pelo amor maior que tinha ao pastoreio.
Admirável eram as bocas confeccionando interjeições sem se dar conta de palavras, o que sugeria uma satisfação jamais vista naquele mundo! Mas também assombroso era o fato. Daquele jeito a humanidade não passaria de um dia. Eram tez tão delgadas que poderiam se partir com a mínima sanha a mais. Tanta vitalidade e fragilidade juntas, antes de desperdiçar-se em existência fugaz, poderiam ser administradas e rendidas a favor do maior de todos eles, o homem primevo. Jamais, justificava o primeiro homem, poderiam os inocentes, com mesma maestria e sucesso, cometer erros ou se crivarem de chagas letivas. As irrisórias gentes não avançariam adiante no destino ao se exporem às canículas imprevisíveis dos primeiros tempos. Tanto frenesi dos irmãos só dava força à inaptidão para vida. O sucesso da humanidade era tão possível quanto o fato de uma boana se organizar em fila horizontal para sincronizar a ação das asas.
O homem primevo, convenceu-se, era a única salvação para seus seguidos, mas era preciso, antes de salvá-los, aprender a convencê-los de tal evidencia. Assim foi ter com o sol para tomar lições de regência de heliotropismo para atrair os irmãos como o astro fazia com os girassóis. Na primeira negativa do astro, que duvidava da pureza dos sentimentos do homem adâmico, seu aspirante a discípulo questionou que nobreza teria a lâmpada para usufruir de tal ensinamento do sol só com o intuito de atrair mariposas enquanto ele possuía ambições bem maiores? A resposta do astro-rei foi subtraída às futuras gerações por motivos misteriosos. O que se sabe é que, por impropriedade de paciência, o homem ameaçou o mestre. Disse que, caso ele lhe negasse ensino, encontraria custasse o que custasse o interruptor do universo e estrangularia o galo com uma só mão. Feito que superaria até sua irritação com a noite pelo puro deleite de desaforar o astro.
Diante de tal molecagem o sol cedeu. Eis então como os termos foram postos: a multidão, em círculo hermético, petalou-se em torno de um miolinho, que era o homem original. Assim ela só poderia ver a si mesma ou às outras coisas se este permitisse. E seguia inocentemente, em paz, sem se dar conta de criações maiores, como a fraternidade e a paternidade.
*Êxodo
Escrito por Narizinho
Segunda-feira, Dezembro 18, 2006
Nos meus chinelos
uma poça que
atravessou o copo
cheio de gelo.
Que enchente, Deus meu!
Como tem gelo!
E muito,
Num copo de conhaque
Só pode ser muito medo.
Escrito por Narizinho
Domingo, Dezembro 17, 2006
Toda vez que ia chupar laranja se concentrava. A casca tinha que sair como uma espiral sem interrupção. A magia não podia ser quebrada. A laranja era chupada depois com prazer ou desconforto dependendo do resultado. Segurava uma ponta e começava a girar a casca repetindo o alfabeto. A B C D E... Arrebentou? Então seu futuro marido terá a primeira letra do nome "E". Não importa se a letra mudasse a cada laranja chupada, afinal o destino era caprichoso para a minha mãe. Mesmo já viúva do meu pai ela continua a girar a casca. Não pretende se casar de novo, mas gosta de apostar no meu pai toda vez que vai chupar uma laranja. Quando não dá a primeira letra do nome dele modifica as regras. Porque o amor é também, entre muitas coisas, teimoso.
Escrito por Narizinho
Sexta-feira, Dezembro 15, 2006
Segunda descoberta:
Quem tem pressa em livraria não procura literatura.
"Como todos os amantes de livros, ele abominava a eficiência no serviço de uma livraria. Preferia procurar descansadamente, ao sabor do seu tempo de ócio, quaisquer obras de interesse literário que a casa lhe pudesse oferecer".
Nelson Bond em A Livraria das Obras Inéditas - Maravilhas do Conto Fantástico, Fernando Correia Da Silva, Org.
Escrito por Narizinho
Quinta-feira, Dezembro 14, 2006
Ontem descobri que existe moléculas de esperanto em bebidas alcoólicas!
Escrito por Narizinho
Terça-feira, Dezembro 12, 2006
Uma formiga de asa delta
ou uma mulher sem um bom amante?
Num jardim qualquer...
Num quarto escuro...
O prurido cria a borboleta
e a borboleta satisfaz o prurido
Um único recado
de luxúria entre as flores.
Escrito por Narizinho
Domingo, Dezembro 10, 2006
As cores da alegria
Tem cor a alegria
Do novo milênio que se desvela
É o azul e branco da Fluoxetina
Que de outrora foi da Portela.
Inda bem que é quase de graça
A alegria branca e amarela
Porque ainda existe cachaça
Com o preço de uma bagatela.
A alegria já foi só branca
E ofuscava tudo mais
Alvejava-se a esperança
No alto custo da paz
Mas houve uma vez um tempo
Que alegria não tinha cor
Ela vinha com o vento
E a gente brincava com a dor.
Escrito por Narizinho
Sábado, Dezembro 09, 2006
As arrogantes traças pensam que podem se alimentar do tempo. Adoram comer aqueles livros amarelados dando a desculpa esfarrapada: "estão esquecidos mesmo". Ontem, quando eu curtia meu trono junto com umas poesias do Mário Quintana, uma escorregou e ficou lá no piso do banheiro andando lesmeticamente toda, toda... Bem vi que duas letras numa palavra " m...s " me roubavam todo o sentido do poema. Desgraçada! Tirei o relógio de pulso e esmaguei-a com requintes de crueldade. Há há há há... Agora quero ver sua marcha fúnebre, safada! Tic-tac tic-tac. Conheceu papuda! Acha que pode desobedecer as leis de meu reinado?
Escrito por Narizinho
Sexta-feira, Dezembro 08, 2006
Cantor de barzinho Da série profissões
Futucando a bunda ele encontra mais uma utilidade para a unha-palheta: fazer operação de carocinhos. Deve ser sua veia médica que pulsou muito menos que a artística. Seus carneiros já estão hipotecados e por isso não dá mais para contar com eles. Enquanto o sono não vem faz as contas de suas dívidas. Foi bom negócio alugar a falação da mamãe para pagar o aluguel deste mês. Mas um dia, ah, um dia, ele vira Djavan... E assim o sono começa a vir e a fome o esquece até de manhã. Fará uma visitinha a Tia Mindinha no asilo. Sempre rola uns biscoitinhos com café e é caridade, pô... A coitadinha tão sozinha! De noite toca no Geraldo, reencontrar amigos... Eh! No sábado confirmou lá na Virginia, dá uns figurões. Se o sucesso não o encontrar pelo menos ele vai tentar um filezinho. Será que um dia a vida cansa? Apropriado perguntar para o seu gato (que tem mais seis além de uma) e sabe viver desempregado. Quando fazia faculdade ninguém o chamava assim. E por pensar nisso, tem que ir na casa do Rafael pedir a caridade dele lhe fazer uns cartazes de aula particular de matemática no computador. De violão não deu ibope. Mas quando começar a tocar Jorge Vercilo... Ah, alguma coisa vai acontecer... Sei não, olha lá... Ria-se ensaiando mistério... Quando a mãe falasse orgulhosa dele naquele depoimento do Faustão ele não ia se agüentar: choraria no ombro da namorada - Débora Secco! E o Brasil inteiro descobrindo o quanto ele é humilde. Abraça o travesseiro esperançoso e cantarola: Amanhã, será um novo dia! Essa é boa! Essa é boa! Vou colocar no repertório.
Escrito por Narizinho
Amo! Amo! Amo! Se eu tivesse uma banda de rock faria músicas assim...
Escrito por Narizinho
Quarta-feira, Dezembro 06, 2006
Lupanar não se falava em bocas de família.
Pelo menos não em femininas.
Era puteiro, não sabe?
Mas tão parecida com verbo, a danada
as vezes escapulia.
E a inocência desavisada e pouco curiosa,
tão amante das formas e distraída de conteúdos,
quando via os homens altivos cavalgar
achavam bonita a palavra
que parecia upa-lá-lá!
Escrito por Narizinho
Terça-feira, Dezembro 05, 2006
A chuva batucando em tudo: piche, folhas, vidros, latas e plásticos. Os postes aproveitavam-se que ela se esparramava para purpurinar a escuridão. E assim um tipo de escola de samba passava quase sem ser percebida. Quase, pois o rapaz gostava de percussão e acordou sem mesquinharia de sono. Foi fazer café atrevido, esta era sua boemia. Deixou a mulher na cama distante em sonhos... Com a mão deformando a bochecha, aspirando a fumaça perfumada do líquido precioso, embaçados óculos antiquados admiravam a negritude da circunferência. Como uma galáxia, como uma pupila gigante... Bolinhas de café convexas se formaram assinalando detergente mal enxaguado e planetas mal acabados. Pôs tudo dentro da barriga: gotas, brilhos, tamborins, insônia, cafeína, universo e detergente. Sentou-se na cadeira de balanço, balançou... E estufando a barriga sentiu-se grávido! Logo, logo, corromperia a folha branca alvejada de idéias...
Novidades!!! Não sei por quanto tempo manterei... (risinhos)
Escrito por Narizinho
Segunda-feira, Dezembro 04, 2006
A bíblia dos céticos Trecho retirado do capítulo do Êxodo
Se, por um lado, a alopatia lhe mitigava os cansaços corporais, por outro, a alma, pela linha invisível do sonambulismo, sortia passado e presente sem reconhecer poente ou nascente dia. Assim não possuía meios de contar o tempo e Sondaia, quieta, só usava do corpo as mãos, para acender e apagar o sol pelo interruptor do mundo. Seu prestígio era pelo fato dela ter criado a taxonomia e por ser sobrevivente de uma hologênese. Era uma dessas espécies de flor de amaranto, com fruto holocarpo, sem a propriedade de sacarização, assim definida.
Contudo, num dia nem tão belo, as cortinas da janela cevaram a luz em seu quarto e do pára-ombro o galo surgiu com um recado que lhe crivou o vaso. Disse:
- Estando a bela Sondaia ad quem, solicito-lhe presença para fazer existir com propriedade tudo que plantei, criei e construí. Causa debendi, creio que deves seguir o caminho que o galo lhe indicar para por nos termos este que está a quo.
Sondaia respondeu-lhe com graça, porém não sem escárnio. Afinal, tempos não sorria, pelo menos não desde aquela vez que um boi lhe varreu com os cílios as solas dos pés por engano.
- Quem és, entômica criatura, para me impor causa debendi? Logo você que se deixou lixar os bicos pelo homem! Pois vá abrir caminhos para o sol e me deixe em paz!
O galo pacientemente então respondeu:
- De minimis non curat praetor e cá estou apenas em cumprimento de missão. Tu ignoras forças que me ventaram e empurram este mundo até você. Não podes mais prestigiar da taxonomia como se essa fosse um pertence. Há entre as coisas do mundo alguém que reclama para si tudo que o planeta acumulou. Eis o destino: cor unum et anima una! Este ser é poderoso porque aprendeu a manipular as águas. Ele pode represá-las com tal vigor que cria desertos e move dilúvios em correntezas tão vigorosas quanto passíveis de talhar uma montanha ao meio. Eu mesmo já vi uma dessas torrentes espraiar de tal forma um pequeno monte de bauxita a ponto de ele ser reduzido a um mísero plano donde, depois de minha morte, ninguém mais guardará lembranças. Todas as outras coisas deste mundo estão cedendo ab hoc et ab hac ao homem. E as que resistem, pobrezitas, são exiladas no reino do invisível.
A dama solitária então percebeu a gravidade do que se passava e resolveu então, consentir num sussurro:
- Abyssus abyssum invocat...
E resignada, temente ao desconhecido que não controlava afogou o riso na escuridão dos olhos e seguiu, numa jangada hermética o galo papudo.
[Conheceu, no entanto, a locomoção e isto foi, ironicamente, a coisa mais maravilhosa que lhe ocorreu. Seu algoz era, que surpresa, o redentor. No caminho tomou decisões... Ao chegar no seu des-atino, entregou sem lamento todo o seu dote, tudo que construíra, ao homem e ficou tão leve que podia voar.]
Desde então sua palavra se reduziu a um chirrio e os braços em penas se transformaram numa asa. Debaixo das estrelas é que ela preferia vadiar e descobriu o mistério da beleza: fingir-se distraída de seus encantos! Mas isso já é outra história...
Escrito por Narizinho
Domingo, Dezembro 03, 2006
É como abacate - preciso explicar. Talvez você não saiba mas sem afeto a gente até engole, no entanto sem açúcar não dá. Por isso pus nossa história na internet tal qual os náufragos de filmes antigos que jogam palavras para o mar dentro de uma garrafinha. Certeza de que você me escute ou se comova juro que não tenho... Contudo os seres humanos são assim, e eu sou um. Fico olhando o horizonte e fazendo de conta que posso chegar até ele em dez passos. Talvez em 78 palavras, quem sabe?
O Neruda diz que saudade é uma coisa ruim e doída, porém reconhece que não sofrer é muito triste. Tão lindo isso, meu Deus! Mas eu não vou usar frases feitas como você e nem cair em demagogia. Só me ocorreu te dizer isso porque eu não sabia o que falar no segundo parágrafo. Quando parei para pensar só vinha saudade na cabeça. Então agora que já escrevi bastante posso passar para outro montinho de palavras.
Ei! Eu te falei naquele e-mail bobo dos garotos góticos com a amiga anã, né? Pois é, não acredito que você tenha lido... (E você leu que eu sei porque me chamou de "figurinha"). Mas eu não disse sobre as coisas que andam te trazendo... Por exemplo, quando voltei da nossa despedida, assim que pisei nesta cidade, quer dizer, no ônibus que faz a linha da rodoviária para o centro, vi o seu nome estampado em néon numa oficina mecânica. Também outro dia fui dar um rolê nos sebos (não atrás de raridades Cortazianas ou Machadianas que fizeram de mim uma garota tão interessante a ponto de você não me aceitar como sou, quero dizer, como sou real e falível). Mas então a primeira revista que vi foi aquele zine, o tal de "Outra Coisa" com entrevista de Arnaldo Baptista... Você disse que era para tapear a ansiedade... Me veio tudo então e eu ali folheando a revista tentando te encontrar... Porque essas coisas acontecem? Os gregos acreditavam em deuses do destino, mas existiria um deus do acaso? Quando fui pagar os gibis da Turma da Mônica eu virei para o lado e vi seu nome nas biografias. Olha só! E então meu coração pensou que há um motivo para isso tudo. Mas a razão me deu mais equilíbrio e me lembrou que aquilo era muito natural já que você tem nome de presidente americano.
Mas mudando de assunto, não resisti e fui ver Antes do Pôr-do-sol (Before Sunset). Não doeu como eu pensei que doeria e talvez por isso eu esteja te escrevendo esta carta... A Julie Delpy/Celine canta esta música para o Ethan Hawke/Jesse...
Let me sing you a waltz
Out of nowhere, out of my thoughts
Let me sing you a waltz
About this one night stand
You were for me that night
Everything I always dreamt of in life
But now you're gone
You are far gone
All the way to your island of rain
(etc)...
Eu queria aprender a tocar violão só para poder tocá-la para você também. Faríamos dessa cena um belo clichê, hein?Eu sei que você deve estar pensando que minha voz de ratinhos da Cinderela estragaria a música. Mas pense como o Henry Miller, não apenas em me julgar uma neurótica puritana, mas ao reconhecer que "Para cantar é preciso primeiro abrir a boca. É preciso ter um par de pulmões e um pouco de conhecimento de música". Eu concordo com isso, e até cantei pra você aquele sambinha da madrugada que faz todo amor acabar na realidade do cotidiano.
Também não me sai da cabeça a idéia de que se a gente fosse um filme ele teria que ter umas seis horas para dar conta da trilha sonora. Óbvio seria um musical que começaria com a gente naquele bar vazio dançando Cordel... E eu com a minha saia encantada rodando, rodando, rodando... E então quando eu vejo aquela sua foto no orkut tocando violão eu fico imaginando o final... Você com a blusa laranja se afirmando para o seu violão assim:
- Iaiá, se eu peco é na vontade de ter um amor de verdade, pois é, que assim um dia eu me atirei... E fui te encontrar pra ver que eu me enganei...
Escrito por Narizinho
Sábado, Dezembro 02, 2006
Comer com olhos
Se eu não pudesse enxergar,
eu juro,
minha alma morreria
por falta de fotossíntese.
Prefácio da Bíblia dos céticos:
Livro
Edimilson Pereira
O mundo começou
no apocalipse.
A alegria das feras
e das águas
antes do paraíso.
A utilidade da ira.
As chagas.
E o vento, o vento
que movia sem tréguas.
Deus teve métodos
(e medos).
Criou o não previsto.